quinta-feira, 22 de janeiro de 2015


Crime e preconceito: mães e filhos de santo são expulsos de favelas por traficantes evangélicos



A roupa branca no varal era o único indício da religião da filha de santo, que, até 2010, morava no Morro do Amor, no Complexo do Lins. Iniciada no candomblé em 2005, ela logo soube que deveria esconder sua fé: os traficantes da favela, frequentadores de igrejas evangélicas, não toleravam a “macumba”. Terreiros, roupas brancas e adereços que denunciassem a crença já haviam sido proibidos, há pelo menos cinco anos, em todo o morro. Por isso, ela saía da favela rumo a seu terreiro, na Zona Oeste, sempre com roupas comuns. O vestido branco ia na bolsa. Um dia, por descuido, deixou a “roupa de santo” no varal. Na semana seguinte, saía da favela, expulsa pelos bandidos, para não mais voltar.
— Não dava mais para suportar as ameaças. Lá, ser do candomblé é proibido. Não existem mais terreiros e quem pratica a religião, o faz de modo clandestino — conta a filha de santo, que se mudou para a Zona Oeste.
A situação da mulher não é um ponto fora da curva: já há registros na Associação de Proteção dos Amigos e Adeptos do Culto Afro Brasileiro e Espírita de pelo menos 40 pais e mães de santo expulsos de favelas da Zona Norte pelo tráfico. Em alguns locais, como no Lins e na Serrinha, em Madureira, além do fechamento dos terreiros também foi determinada a proibição do uso de colares afro e roupas brancas. De acordo com quatro pais de santo ouvidos pelo EXTRA, que passaram pela situação, o motivo das expulsões é o mesmo: a conversão dos chefes do tráfico a denominações evangélicas.

Atabaques proibidos na Pavuna

A intolerância religiosa não é exclusividade de uma facção criminosa. Distante 13km do Lins e ocupada por um grupo rival, o Parque Colúmbia, na Pavuna, convive com a mesma realidade: a expulsão dos terreiros, acompanhados de perto pelo crescimento de igrejas evangélicas. Desinformada sobre as “regras locais”, uma mãe de santo tentou fundar, ali, seu terreiro. Logo, recebeu a visita do presidente da associação de moradores que a alertou: atabaques e despachos eram proibidos ali.
—Tive que sair fugida, porque tentei permanecer, só com consultas. Eles não gostaram — afirma.
A situação já é do conhecimento de pelo menos um órgão do governo: o Conselho Estadual de Direitos do Negro (Cedine), empossado pelo próprio governador. O presidente do órgão, Roberto dos Santos, admite que já foram encaminhadas denúncias ao Cedine:
— Já temos informações desse tipo. Mas a intolerância armada só pode ser vencida com a chegada do estado a esses locais, com as UPPs.
O deputado estadual Átila Nunes (PSL) fez um pedido formal, na última sexta-feira, para que a Secretaria de Segurança investigue os casos.
— Não se trata de disputa religiosa mas, sim, econômica. Líderes evangélicos não querem perder parte de seus rebanhos para outras religiões, e fazem a cabeça dos bandidos — afirma.
Nas favelas, os ‘guerreiros de Deus’
Fernando Gomes de Freitas, o Fernandinho Guarabu, chefe do tráfico no Morro do Dendê, ostenta, no antebraço direito, a tatuagem com o nome de Jesus Cristo. Pela casa, Bíblias por todos os lados. Já em seus domínios, reina o preconceito: enquanto os muros da favela foram preenchidos por dizeres bíblicos, os dez terreiros que funcionavam no local deixaram de existir.
Guarabu passou a frequentar a Assembleia de Deus Ministério Monte Sinai em 2006 e se converteu. A partir daí, quem andasse de branco pela favela era “convidado a sair”. Os pais de santo que ainda vivem no local não praticam mais a religião.
A situação se repete na Serrinha, ocupada pela mesma facção. No último dia 22, bandidos passaram a madrugada cobrindo imagens de santos nos muros da favela. Sobre a tinta fresca, agora lê-se: “Só Jesus salva”.
O babalaô Ivanir dos Santos, representante da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), criada justamente após casos de intolerância contra religiões afro-brasileiras em 2006, afirma que os casos serão discutido pelo grupo, que vai pressionar o governo e o Ministério Público para que a segurança do locais seja garantida e os responsáveis pelo ato sejam punidos. “Essas pessoas são criminosas e devem ser punidas. Cercear a fé é crime”, diz o pai de santo.

Lei mais severa

Desde novembro de 2008, a Polícia Civil considera como crimes inafiançáveis invasões a templos e agressões a religiosos de qualquer credo a Lei Caó. A partir de então, passou a vigorar no sistema das delegacias do estado a Lei 7.716/89, que determina que crimes de intolerância religiosa passem a ser respondidos em Varas Criminais e não mais nos Juizados Especiais. Atualmente, o crime não prescreve e a pena vai de um a três anos de detenção.
Filha de santo, que foi expulsa do Lins: ‘Não suportava mais fingir ser o que não era’.
— Me iniciei no candomblé em 2005. A partir de minha iniciação, comecei a ter problemas com os traficantes do Complexo do Lins. Quando cheguei à favela de cabeça raspada, por conta da iniciação, eles viravam o rosto quando eu passava. Com o tempo, as demostrações de intolerância aumentaram. Quando saía da favela vestida de branco, para ir ao terreiro que frequento, eles reclamavam. Um dia, um deles veio até a minha casa e disse que eu estava proibida de circular pela favela com aquelas “roupas do demônio”. As ameaças chegaram ao ponto de proibirem que eu pendurasse as roupas brancas no varal. Se eu desrespeitasse, seria expulsa de lá. No fim de 2010, dei um basta nisso. Não suportava mais fingir ser o que eu não era e saí de lá.
Mãe de santo há 30 anos, expulsa da Pavuna: ‘Disseram que quem mandava ali era o ‘Exército de Jesus”.
— Comprei, em 2009, um terreno no Parque Colúmbia, na Pavuna. No local,. não havia nada. Mas eu queria fundar um terreiro ali e comecei a construir. No início, só fazia consulta, jogava búzios e recebia pessoas. Não fazia festas nem sessões. Não andava de branco pelas ruas nem tocava atabaque, para não chamar a atenção. Um dia, o presidente da associação de moradores foi até o local e disse que o tráfico havia ordenado que eu parasse com a “macumba”. Ali, quem mandava na época era a facção de Acari. Já era mais de santo há 30 anos e não acreditei naquilo. Fui até a boca de fumo tentar argumentar. Dei de cara com vários bandidos com fuzis, que disseram que ali quem mandava era o “Exército de Jesus”. Disse que tinha acabado de comprar o terreno e que não iria incomodar ninguém. Dias depois, cheguei ao terreiro e vi uma placa escrito “Vende-se” na porta — eles tomaram o terreno e o puseram a venda. Não podia fazer nada. Vendi o terreno o mais rapidamente possível por R$ 2 mil e fui arrumar outro lugar.

Leia a matéria completa em: Crime e preconceito: mães e filhos de santo são expulsos de favelas por traficantes evangélicos - Geledés 
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Negros brasileiros querem oportunidades iguais para todos

Mônica defende o fortalecimento de políticas públicas que promovam a igualdade. Foto: Fernanda Ruy
A Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) decretou no dia 23 de dezembro esta década como a Internacional de Afrodescendentes (de 1º de janeiro de 2015 a 31 de dezembro de 2024). A ONU pretende usar o tema, “Afrodescendentes: reconhecimento, justiça e desenvolvimento”, para aprofundar o debate acerca do racismo em todas as suas nuances nos 206 países existentes. “O decreto da ONU pode ajudar nas questões institucionais no país em relação aos direitos universais como saúde, trabalho, educação, entre outros”, revela Mônica Custódio, secretária de Promoção da Igualdade Racial da CTB.
“O Estado brasileiro desde 2003 vem implementando políticas públicas importantes para o combate a todas as formas de discriminação na tentativa de promover igualdade de oportunidades para todos”, acentua a cetebista carioca. “Essas políticas deixam de existir, porém, quando os municípios não absorvem e não levam a cabo a realização delas”, reclama.
Por isso, para Mônica, os movimentos sociais organizados têm papel preponderante para se buscar a implementação desses projetos, “necessários para se combater a desigualdade”, reafirma. “Se queremos um país mais justo e igual é fundamental que se promovam políticas de atendimento à juventude”, defende. “As centrais sindicais podem ser o elo de aglutinação com os movimentos sociais para elevar o patamar das lutas por igualdade racial”, acentua.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Votos de Boas Festas

2014 foi um ano importante para o Órgão de Educação e Relações Étnicas - ODEERE/UESB. Completamos uma década de trabalhos voltados à educação e cultura em Jequié e região.

A extensão do ODEERE gradece a todos que estiveram conosco ao longodesse período. Esperamos que em 2015 possamos continuar a parceria, fortalecendo as discussões que contribuem para o enfrentamento das desigualdades socioculturais relacionadas à população afro-brasileira e indígena.

Desejamos um ano novo repleto de Diversidade, Fraternidade, Felicidade, Prosperidade... Boas Festas.

Prof. Ms. Antonio Argolo Silva Neto
Profa. Esp. Idalia Lino
Prof. José Luiz Negão
Coordenadores da Extensão - Odeere/Uesb

Indígenas e comunidades tradicionais comemoram vitória contra ruralistas

Comunidades indígenas e movimentos sociais que lutam em defesa dos povos tradicionais tiveram ontem (17) uma importante vitória, ainda que parcial, resultado da intensa pressão realizada ao longo dos últimos dois anos na Câmara dos Deputados. Isso porque o presidente da comissão especial da PEC 215/00, deputado Afonso Florence (PT-BA), no plenário da Câmara, que foi cancelada a votação do relatório do deputado Osmar Serraglio (PMDB-SC), favorável à PEC. A Proposta de Emenda à Constituição 215/00 submete ao Congresso Nacional a decisão final sobre a demarcação de terras indígenas no Brasil.

Na avaliação do deputado Chico Alencar, o arquivamento da proposta nesta legislatura é uma vitória do respeito aos povos indígenas. “A proposta de Emenda (in)Constitucional que agride o direito de 305 povos à sua terra e cultura só será apreciada, tendo que cumprir todas as etapas de tramitação, na próxima legislatura”, explicou Alencar.

“Esta PEC é um atentado aos direitos dos índios, é patrocinada pelos ruralistas que querem expandir sua fronteira de agronegócio a qualquer custo. Não vamos permitir que isto aconteça. Em 2015, junto com os movimentos indígenas, continuaremos nesta luta”, afirmou o líder do PSOL na Câmara, deputado Ivan Valente.

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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Uesb recebe prêmio de Direitos Humanos em Brasília

Fonte da Imagem: blog de Rodrigo Ferraz
A comemoração do Dia Internacional dos Direitos Humanos (10/12) foi bastante polêmica na Câmara dos Deputados em Brasília. Tudo começou já no corredor da Câmara. Ao reagir contra a fala da Deputada Maria do Rosário (PT/RS), sobre a ditadura, o Deputado Jair Bolsonaro (PP/RJ) disse que não a estuprava porque ela não merecia.
As reações a esse posicionamento seguiram na sessão da Câmara, apontado novos agravantes. De acordo com informações, Bolsonaro é militar de reserva e em 2003 repetiu a mesma ofensa à Maria do Rosário. Essa reincidência de desrespeito à mulher, bem como sua referência ao Dia dos Direitos Humanos como “dia da vagabundagem”, impulsionou uma representação contra o deputado no Comitê de Ética.
Essa representação, apresentada pelo PT, PC do B, PSB e PSOL, peticiona a cassação do mandado de parlamentar pela quebra de decoro da Câmara. Argumenta que, de forma reincidente, Bolsonaro discrimina, induz e incita a discriminação étnica, racial e de gênero. Ficando caracterizada a ameaça velada à Rosário causando uma perseguição, incompatível com as responsabilidades do exercício parlamentar.
Enquanto o Conselho de Ética providencia um relator para o processo várias pessoas, instituições e movimentos sociais ligados aos Direitos Humanos conclamam a população a protestar contra as atitudes de Bolsonaro. Quem se interessar pode assinar uma petição pública, que se encontra no final desta postagem.

NOTÍCIAS BOAS
Para comemorar o Dia Internacional dos Direitos Humanos o governo brasileiro condecorou pessoas e várias instituições, que desenvolvem ações na promoção e defesa dos Direitos Humanos.
A UESB, na pessoa do vice-reitor Fábio Félix, recebeu da Presidente Dilma Rousseff um prêmio pelo trabalho desenvolvido pelo Centro de Referências em Direitos Humanos (CRDH/UESB).
De acordo com o site da UESB o CRDH tem sede em Jequié. Foi criado em 2011, por meio da Pró-reitoria de Extensão e Assuntos e Comunitários (Proex). Desde então, oferece atendimento especializado a pessoas em situações de vulnerabilidade social e que, porventura, tenham seus direitos violados. Durante esse tempo de existência, o Centro de Referências tem contribuído para o fortalecimento da rede de promoção e proteção dos Direitos Humanos.
Os coordenadores do CRDH comemoram o prêmio, pois ele reforça a importância do trabalho social que vem sendo desenvolvido ao longo de três anos. Pelos resultados que ele apresenta e, sobretudo, pelo reconhecimento dessas ações, que significa um maior comprometimento da instituição, na construção de políticas que contribuam para a superação das desigualdades e violências – palavras de Fábio Félix.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

I Seminário de Mulheres nas Artes

Nessa quinta-feira (4/12), acontece o I Seminário de Mulheres nas Artes (SEMAS). O evento é promovido pelo Núcleo de Estudos em Gênero, Raça e Sexualidades (NEGRES), vinculado ao Órgão de Educação e Relações Étnicas (Odeere) e parceiro com o Grupo de Ações Performativas Motus (GAP-M).
O Seminário conta com uma programação que contempla Rodas de Conversas, Café com Arte, Sarau e Momentos Culturais (veja imagem). As inscrições, num total de 50 vagas, devem ser feitas até o dia do evento, mediante a doação de 1 brinquedo, no colegiado de Teatro.
O SEMAS tem o apoio da Pró-reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (Proex) e será produzido pelos docentes e discentes em Teatro e Dança da UESB. Mais informações podem ser obtidas pelo endereço eletrônico seminariodemilheresnasartes@gmail.com. Participem!
Local: Seminário 2, no Centro de Aperfeiçoamento Profissional (CAP) Dalva de Oliveira Santos, campus de Jequié. Data: 04 de dezembro de 2014.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Antonio Olavo convida a comunidade para lançamento do seu novo documentário visual - A Cor do Trabalho

Dia 12/12, às 19h, o jequieense Antonio Olavo estará lançando seu mais novo documentário “A Cor do Trabalho” no teatro da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). A apresentação é gratuita e todas as pessoas, que se interessam pelo tema, estão convidadas para participarem.
De acordo com Olavo, A Cor do Trabalho registra como a união entre a solidariedade e o trabalho constituiu uma força com o poder de transformar histórias e vidas da população negra na Bahia. Positivando suas vivências, superando as adversidades, servindo de exemplos e referências para as gerações posteriores.
Ao registrar experiências vitoriosas de negros e negras, que ao longo dos séculos romperam com o estigma do preconceito racial, e tiveram êxito no seu trabalho, o documentário realça o lugar especial do conhecimento, da família, da comunidade, das redes de parentesco biológico ou espiritual, da mulher, provedora Mãe.
Produzido pela Portfolium Laboratório de Imagens, este documentário é uma realização da Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte – SETRE. Faz parte de um conjunto de ações desenvolvidas, entre as quais o recente Edital de Apoio à Economia Solidária de Matriz Africana, cujo objetivo é fortalecer uma política de valorização permanente das raízes históricas do povo negro, nos aspectos sociais, econômicos, culturais, étnicos, religiosos e políticos.
A Cor do Trabalho não tem cunho comercial. Suas exibições sempre terão acesso livre ao público e suas cópias serão distribuídas, como doação, para bibliotecas, instituições públicas culturais, entidades negras e todas as escolas do Ensino Fundamental e Ensino Médio da Rede Pública Estadual da Bahia.