quinta-feira, 1 de março de 2012

Joaquim Barbosa será o terceiro negro da história do STF

Joaquim Barbosa

Pela terceira vez em mais de 100 anos de existência, o Supremo Tribunal Federal (STF) terá como presidente um negro: o ministro Joaquim Benedito Barbosa Gomes. Destinado a ocupar o mais alto cargo da corte de Justiça Brasileira, ele deverá assumir em novembro de 2012, em razão do rodízio de ministros da casa. Até lá, Ayres Britto que terá posse em 19 de abril permanecerá no lugar de Cezar Peluso.

Não fossem por problemas de saúde, Barbosa teria ocupado o cargo de presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2010. Devido aos imprevistos, e por sua competência, ele assume o cargo que faz parte da linha sucessória da Presidência da República, depois da Presidência da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.

Histórico – De família pobre, Joaquim Barbosa como é conhecido no cenário político, nasceu no município mineiro de Paracatu, em 1954. Primogênito de oito filhos, viu seus pais se separarem cedo, tornando-se responsável pela família composta por sua mãe e irmãos. Aos 16 anos, foi sozinho para Brasília, onde conseguiu emprego e concluiu o segundo grau, sempre estudando em colégio público.

Obteve seu bacharelado em Direito na Universidade de Brasília e, em seguida, mestrado em Direito do Estado. Prestou concurso público para Procurador da República e foi aprovado. Na década de 1990, licenciou-se do cargo e foi estudar na França por quatro anos, onde se mestrou em Direito Público e se doutorou em Direito Público pela Universidade de Paris-II (Panthéon-Assas).

É professor licenciado da Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde ensinou as disciplinas de Direito Constitucional e Direito Administrativo. Foi visiting scholar (1999-2000) no Human Rights Institute da Columbia University School of Law, New York, e na University of California Los Angeles School of Law (2002-2003).

Barbosa prestou concurso para a carreira diplomática. Foi aprovado em todas as etapas e ficou na entrevista: a única na qual a cor de sua pele era identificada. A partir do episódio, sua consciência racial, que começou a ser desenhada na adolescência, ganhou contornos mais fortes. Atual ministro e provável presidente do STF, foi defensor do sistema de cotas que garante vagas universitárias específicas para estudantes negros.

Por Daiane Souza

http://www.revistaafricas.com.br

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Inscriçoes

Informamos que as inscrições para o curso de” Extensão em Educação e Cultura Afro-brasileira” e “Didática para o ensino de historia e cultura africana e afro-brasileira” iniciarão nessa quarta-feira dia 29/02, os interessados de outras localidades estaremos disponibilizando as fichas dentro dos próximos dias on-line.
Maiores informações Facebook, Orkut, e-mail blogger e pelo telefone
Facebook : http://www.facebook.com/pages/ODEERE/242929499132517
e-mail: odeere_uesb@hotmail.com
Fone: (73) 3526 – 2669
Blog : www.odeereuesb.blogspot.com

Coordenação

Prazo de entrega dos relatorios

Prezados (as)

Para aqueles (as) alunos (as) que concluíram todos os módulos e participaram da viagem de campo, informamos que a data final para entrega de relatório do curso será 02/03/2012. Este relatório deverá ser entregue no ODEERE (impresso). Em breve estaremos confirmando a data do cerimonial de encerramento e entrega de certificados.
Contato: Odeere_uesb@hotmail.com,
fone: 073 3526-2669

Paulo Henrique Amorim é condenado a pagar indenização por racismo

RIO DE JANEIRO - Paulo Henrique Amorim foi condenado a pagar uma indenização de R$ 30 mil ao jornalista Heraldo Pereira, da TV Globo. O valor será dividido em seis parcelas de R$ 5 mil, que começam a ser pagas no dia 15 de março. Além disso, Amorim também terá de fazer uma doação de R$ 30 mil a uma instituição de caridade indicada por Pereira.

E ainda tem mais: o apresentador da Rede Record terá que se desculpe publicamente com o colega de profissão. A Justiça determinou que Paulo Henrique Amorim publique uma nota de retratação nos jornais “Correio Braziliense” e “Folha de S. Paulo”, no blog “Conversa Afiada” e retire todas as reportagens que façam menção a Heraldo Pereira no blog.

A briga judicial entre os dois já vinha desde 2010, quando o apresentador do programa “Domingo Espetacular”, da Rede Record, publicou um texto no “Conversa Afiada”, onde dizia que Pereira fazia bico na Globo e era um “negro de alma branca”. Além disso, Paulo Henrique Amorim questionava a ética do colega e chegou a dizer que ele trabalhava para Gilmar Mendes, então presidente do STF (Supremo Tribunal Federal).

Leia a íntegra do texto que deverá ser publicado nos jornais:

“RETRATAÇÃO DE PAULO HENRIQUE AMORIM CONCERNENTE À AÇÃO 2010.01.1.043464-9, que reconhece Heraldo Pereira como jornalista de mérito e ético; que Heraldo Pereira nunca foi empregado de Gilmar Mendes; que apesar de convidado pelo Supremo Tribunal Federal, Heraldo Pereira não aceitou participar do Conselho Estratégico da TV Justiça; que, como repórter, Heraldo Pereira não é e nunca foi submisso a quaisquer autoridades; que o jornalista Heraldo Pereira não faz bico na Globo, mas é empregado de destaque da Rede Globo; que a expressão 'negro de alma branca' foi dita num momento de infelicidade, do qual se retrata, e não quis ofender a moral do jornalista Heraldo Pereira ou atingir a conotação de 'racismo'”.

Por Famosidade

"Jardim das Folhas Sagradas”, o filme.

Quem não assistiu o filme “Jardim das Folhas Sagradas”, sob direção do cineasta baiano Pola Ribeiro, assistam. É um filme imperdível para todos (as) aqueles (as) que se preocupam com as questões religiosas em pleno século XXI. Erradamente, alguns pensadores proféticos da Modernidade, decretaram a morte da Religião como elemento propulsor da máquina terrestre racionalizadora e mortífera; mas o que me interessa aqui é discutir de como a Religião de Matriz Africana, neste caso específico, o Candomblé, foi historicizado através do Mito. Aliás, o Mito é uma narrativa poderosa de significações. Sendo assim, vejamos como um Mito Africano se re-atualizou na sociedade contemporânea, urbana, no cenário baiano, através da personagem Bomfim, protagonizada pelo autor baiano Antônio Godi.

Para aqueles que não assistiram ao filme, Bonfim é um homem negro baiano que se vê na encruzilhada, literalmente, em decidir se vai assumir o sacerdócio de um Terreiro de Candomblé em Salvador. O cargo de Babalorixá (Pai- de –Santo) é uma herança familiar que lhe foi divinizado de acordo com o jogo dos Búzios. Bonfim é um filho de Ossain, um dos Orixás mais respeitados devido a sua importância em cultuar as Folhas sagradas nos Terreiros de Candomblé. Sem essa Divindade não existe culto, pois as folhas representam a pureza; a limpeza; a cura, a magia, a natureza, o oxigênio que respiramos.

Bonfim é um negro bem sucedido profissionalmente, é gerente de um Banco, casado com uma mulher branca e evangélica. Sua angústia é dupla: tem que escolher entre assumir seu destino religioso e ou sua profissão e, ao mesmo tempo, conviver com a intolerância religiosa de sua esposa que o demoniza devido a sua inclinação para o Candomblé. No meio de tantas tensões e conflitos, vivencia, no ambiente de trabalho, discriminação racial praticada por seus colegas brancos (as); que não o aceita como negro, ocupando cargo de chefia. Diante dessas duas situações, Bonfim toma uma decisão: separa-se da mulher e abandona o emprego para viver plenamente o seu destino religioso.

Neste ínterim, Bonfim convive com várias pessoas de Santo que o incentivam a tomar tal decisão. Por outro lado, apaixona-se por um jovem branco, com o qual tem uma intensa relação amorosa. Paralelamente, inicia sua vida religiosa como Babalorixá de um Terreiro, cujo terreno foi comprado na mão de dois vigaristas, estelionatários que o engana. Compra o terreno em Salvador e inicia ali o culto aos Orixás. Uma das preocupações fundamentais do filme, o tema central, é que Bonfim como vegetariano, filho de Ossain, não aceita a matança de animais no Candomblé. Contrariando os cultos sagrados, Bonfim inaugura sua Casa de Santo e utiliza apenas como ritual, as folhas. Depois dessa atitude, a vida de Bonfim desmorona-se: seu grande amor, o jovem branco, sofre um acidente de carro e falece; sua casa de Santo pega fogo e um dos seus amigos, inclusive antropólogo, morre em decorrência do incêndio. Tais acontecimentos fazem com que Bonfim volte atrás e retome sua vida religiosa dentro dos rituais tradicionais do Candomblé.

Duas questões são relevantes, ao meu ver, que são elucidadas no filme. Uma é a forma como o cineasta trabalha com maestria as visões permeadas pelos não –candomblecistas – sobre a matança de animais no Candomblé. Geralmente, os leigos ou contestadores do Candomblé utilizam tal argumento para demonizar as práticas ritualísticas que utilizam os animais como oferendas e estes como alimentos para socialização entre as pessoas; prática inclusive corriqueira entre nós pobres mortais; a diferença é que muitos daqueles que comem carne, na atualidade, diferente do Candomblé, compartilham dos rituais de tortura recheados com muitas “bombas” de hormônios produzidas em série pelas máquinas mortíferas da sociedade moderna ocidental; aliás, deve-se registrar quanto é doloroso ver um boi ser abatido; quem vê, jamais esquece do ritual de crueldade ao qual o animal é submetido ou da perversidade que determinados animais sofrem em laboratórios experimentais da ciência; mas a ciência é racional? Deve ser por isso, que os Hindus não comem a carne do gado!

O filme problematiza esta questão a partir do olhar de dentro do Terreiro de Candomblé, sem resvalar para o campo da acusação ou da ofensa, ao contrário, o autor do filme utiliza-se da re-tualização do Mito de Ossain, Orixá das Folhas, para mostrar que a Natureza é plena de significados, que a fauna e a flora fazem parte da nossa constituição de mundo; talvez, o que precisamos é respeitar mais a quem nos dá a “carne” e o “ sangue” de Cristo.

Além disso, o mito de Ossain é o mito que contraria boa parte das Religiões que santificam ou reprimem seus mitos e suas sexualidades. Ossain, assim como o seu filho, personagem representado por Bonfim é um Orixá que tem dupla sexualidade. No filme, Bonfim era casado com uma mulher branca, depois apaixonou-se por um rapaz branco e relaciona-se sexualmente com uma mulher negra do Candomblé. Quem conhece os mitos africanos sabem que a hetero-mono-normatividade não tem seu lugar; talvez, seja por isso também, que a nossa Religião seja tão perseguida. Ela contraria a norma das evidências bárbaras colonialistas incorpadas no discurso da cristianização da sexualidade, do gênero e da raça.

O filme nos leva a uma viagem psicodérica, fora das armadilhas bilaterais que nos amarra entre o discurso construído pelo modelo dual do pecado e do profano, ao contrário, revesbera para uma linguagem mitológica que ganha força em narrativas vivas vivenciadas por um homem comum que traz no seu Odú (destino) a tarefa de nos fazer refletir sobre os inter-campos da selvageria grotesca com que aprendemos a nos relacionar com a natureza apenas como objeto de produção e sobrevivência do homem para uma relação de pensar a natureza divinizada como sujeito. É uma reflexão sobre o meio ambiente numa perspectiva inovadora, transcrita em cenas que problematizam a tríade relação: homem- criação e natureza. A eficácia simbólica do filme consiste em nos retirar da zona de conforto a que sempre nos sentimos situados em relação ao “outro” seres da natureza . Quem assistir o filme com o olhar não etnocêntrico, verá que o mito não morre. O mito, nesse caso é trans histórico, é uma narrativa sobre nós mesmos, nossos antepassados, nossas sociedades, é a forma de lermos a nossa cultura, não é uma mentira, é uma linguagem que utilizamos para dizer coisas mais profundas que nem sempre a nossa vã filosofia não consegue explicar.

Enfim, que um dia todos nós possamos viver em paz, sem invadir o espaço público de ninguém e que posamos viver no jardim das folhas e das faunas sagradas....

Ana Cláudia Lemos Pacheco

Doutora em Ciências Sociais- UNICAMP; professora de Sociologia e Antropologia do DCHL/UESB

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Brasil: Discriminação racial é realidade multifacetada

Leila Lopes, Angolana Miss Universo 2011

Três eventos culturais realizados no Brasil serviram de cenário recentemente para a demonstração de dois graves problemas brasileiros: a discriminação e a desigualdade raciais.

Um dos eventos literários mais importantes do país, no Rio de Janeiro, e o concurso Miss Universo, em São Paulo, foram marcados por contextos de racismo. Já na capital Brasília, um seminário apontou dados impressionantes sobre a diferença que existe entre o mundo dos negros e o dos brancos no Brasil

No episódio de racismo ocorrido durante a 15ª Bienal do Livro, no Rio de Janeiro, o funcionário da "Editora Abril" acusado de discriminar um grupo de estudantes afrodescendentes foi indiciado esta semana. O crime ocorreu quando as jovens teriam pedido um convite para uma palestra. O funcionário da editora teria negado a solicitação dizendo que as alunas não poderiam ir ao evento porque eram “negras de cabelo duro e faveladas”.

Na segunda-feira, Leila Lopes, a angolana vencedora do "Miss Universo 2011", foi alvo de ataques racistas de brasileiros em redes sociais, logo depois do concurso realizado pela primeira vez no Brasil, em São Paulo. Um usuário do "Facebook", do Rio de Janeiro, chegou a chamar Leila de “macaca”.

Os dois episódios ajudam a ilustrar a realidade que marca a vida do afrodescendente no Brasil, país de maioria populacional negra. A disparidade entre a vida do negro e do branco no território brasileiro ganhou provas científicas também esta semana em um seminário que debateu, na quarta-feira , o “Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil 2009 – 2010”, na Câmara dos Deputados, na capital Brasília.

O evento debateu o documento, desenvolvido pelo Laboratório de Estudos sobre Desigualdades Raciais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LAESER), considerado o mais completo já feito sobre o tema. O responsável pelo estudo é o economista e sociólogo Marcelo Paixão, um dos mais importantes pensadores negros da atualidade, especialista em relações raciais.

O professor revelou no evento em Brasília dados preocupantes: os afrodescendentes têm menor chance de acesso ao sistema de saúde no Brasil. A taxa de não cobertura ao sistema chega a 27%, enquanto entre os brancos esse índice é de14%. 42% das mulheres negras tiveram acesso ao exame de pré-natal. Entre as brancas o percentual é bem maior, 71%.

As crianças e adolescentes são mais dependentes da merenda escolar para sobreviver, 60,6%. Entre as brancas esse número cai para 48,1%. A população negra tem também menor probabilidade de acesso à previdência social. As crianças afrodescendentes têm menos chances de ingresso nas creches e instituições de ensino. Para o especialista, esses números confirmam que a cor da pele é determinante para ser melhor ou pior tratado no Brasil:

“O fato é que a variável cor da pele, a aparência física é um critério de classificação social no Brasil e ela aumenta a probabilidade de uma pessoa de pele mais escura ou mais clara ter determinadas chances ou determinadas restrições sociais dentro, seja do aparelho do Estado, seja da dinâmica da vida social no seu conjunto.”

Outro dado preocupante com relação à desigualdade racial no Brasil é observado no campo da educação superior. A grande e esmagadora maioria dos jovens negros está fora das universidades brasileiras:

“A taxa de analfabetismo hoje no Brasil ainda é o dobro da população branca. O percentual de jovens negros freqüentando a universidade é de apenas sete por cento. 93% dos jovens estão fora das universidades. É evidente que isso vai acabar se refletindo no acesso ao poder político, na capacidade de produzir intelectuais ou lideranças que sejam capazes de verbalizar as demandas dessa coletividade, de mostrar no espaço público os efeitos negativos da discriminação, do racismo,” detalha o analista.

Excluídos da educação, os negros do Brasil ficam fora da política, como destaca o professor:

“A grande maioria dos deputados brasileiros são homens brancos com nível superior, pelo menos incompleto. Perto de 86 %. E isso reflete o que é a sociedade brasileira, desigualdade de renda, desigualdades de acesso ao poder econômico e que vão se caracterizar também no que tange ao poder político,” afirma.

“Não tem um nome hoje que podemos mencionar que possa talvez ser candidato a presidente da república. Mesmo para governo dos estados, é difícil lembrar de um afrodescendente com chances de vitória. Isso é ruim porque perdemos vocação política, pessoas que teriam talento para tanto, vão ficar com as carreiras bloqueadas,” completa.

O estudo debatido no seminário, em Brasília, mostrou que em todos os setores da sociedade brasileira a disparidade entre a vida dos negros e brancos é evidente:

“Há uma lacuna de cobertura a população afrodescendente no Brasil e que vamos precisar fazer maiores esforços para produzirmos políticas que, sem a perda da dimensão universal, sejam capazes de compreender situações particulares que vão afetando cada grupo da população, entre eles o da população negra. É necessário saber que a pobreza é um fator importante na construção desse cenário, mas é importante mencionar que ele é produto também de práticas institucionais que acabam dando a população negra serviço de menor qualidade ou, muitas vezes, se quer, dando a essa população negra a qualquer coisa.”

Os dados são complexos, de respostas longas. As soluções também, mas passam por um passo inicial que deveria ser simples: “é a tal vontade política que vai ser o nosso combustível para começarmos a buscar as tentativas de superação desse quadro,” lembra o estudioso.

Mas, apesar do gravíssimo cenário, Marcelo Paixão acredita que o brasileiro possa estar sinalizando para mudanças, ainda que lentas.

“O que aconteceu no Brasil no período recente foi uma mudança na forma do brasileiro responder ao Censo qual é a sua cor ou raça. Até o ano de 1995, a população que se declarava branca no Brasil era em torno de 54%. No último censo de 2010, a população que se declara branca é de 48%. Uma mudança de sete pontos percentuais. Então, houve sim uma maior sensibilidade do brasileiro médio de se ver como uma pessoa que tem origens que não são apenas européias. Esse processo de auto identidade suscita um foco diferente de o brasileiro reconhecer a sua ancestralidade. É interessante porque projeta como o cidadão no Brasil pode estar querendo se ver no futuro, num país mais equilibrado, do ponto de vista social,” finaliza.

fonte: http://www.zwelangola.com/lusofonia/index-lr.php?id=7027

sábado, 17 de setembro de 2011

O "dom" das entranhas...


Eu, mulher negra, estava a buscar imagens que me representasse força com o intuito de ilustrar mais uma postagem aqui no blog. Quando, ‘folheando’ as páginas do site de busca mais utilizado – Google – me deparo com essa imagem capitalista. O choque foi de imediato: visão capitalista e moralista. Como devem saber, a cerveja Devassa não é uma bebida com preço acessível para todas as classes.
Seria um tanto ortodoxo se entendesse que essa propaganda alem do consumo alcoólico está induzindo a venda do corpo negro?!Alias, do ‘verdadeiro corpo negro’. Ou seja, aquele corpo no padrão para servir aos senhorzinhos ( publico-alvo da marca). Peitos pontudos, cintura afinadíssima, bunda empinada, lábios provocantes, coxas grossas, percentagem de melanina não tão acentuada (a tão conhecida mulata)... e o principal: “a disponibilidade em servir”, ou quem sabe, a “competência”. Não há momento tão propício para citar aqui a tese de doutorado da pesquisadora Ana Cláudia Lemos Pacheco que traz como título: Branca para Casar, Mulata para F.... e Negra para Trabalhar: escolhas afetivas e significados de solidão entre mulheres negras em Salvador.
Chamando atenção para essa imposição histórica, de que nós mulheres negras já nascemos com o “dom” do sexo na porta das entranhas e por isso, não há “ocupação” melhor para essa classe. Ora, se temos esse “dom” de infância, porque não servir à nossa tão amada sociedade, sim?! Acorda povo preto! O lugar de submissão não é exclusivamente nosso. É imprescindível que nós mulheres negras venhamos a ocupar posições que nos é merecida de berço. Como a medicina, a arquitetura, a engenharia, a educação... E para isso, ousemos a invadir os espaços de poder, aqueles que nos dão as armas... Aqueles que nos dão conhecimento! Poder ao Povo Negro!!

Por: Evellin Oliveira (Graduanda de Pedagogia pela Universidade do Estado da Bahia. Pesquisadora da temática etnicorracial)

Fonte: http://cancoesdalma.blogspot.com/2011/09/eu-mulher-negra-estava-buscar-imagens.html?spref=fb